
Dois anos se passaram desde que a água tomou cidades inteiras do Rio Grande do Sul, destruiu casas e estradas. A tragédia deixou 185 mortos e 23 pessoas ainda desaparecidas. Considerada a maior registrada na história do estado, a enchente de 2024 escancarou fragilidades históricas do território gaúcho diante de tragédias climáticas cada vez mais frequentes.
Hoje, o estado vive um período de reconstrução marcado por avanços estruturais, investimentos bilionários (leia mais abaixo) e desafios que ainda seguem abertos. Dois anos depois, o Rio Grande do Sul está realmente preparado para que uma tragédia dessa dimensão não se repita?
Apesar de avanços na prevenção, na resposta da Defesa Civil e na reconstrução, especialistas e autoridades reconhecem que o estado ainda enfrenta desafios importantes. Famílias seguem em moradias temporárias, produtores rurais acumulam dívidas, e obras estruturais de grande porte, consideradas essenciais para reduzir riscos, ainda estão em andamento.
Ao todo, 478 municípios foram afetados, sendo 95 em situação de calamidade pública e mais de 300 em emergência.
O governo afirma que o estado está mais preparado para enfrentar novos eventos extremos, mas reconhece que parte das soluções depende de obras estruturais de grande porte, que exigem projetos complexos e prazos mais longos.
“Não está tudo perfeito, naturalmente. É uma jornada um pouco mais longa, mas sem dúvida nenhuma, o Rio Grande do Sul em 2026 está muito melhor preparado do que a gente tinha lá em 2024”, complementa o governador.
Especialistas concordam que o processo está longe de ser concluído. Ao analisar Porto Alegre, o professor da UFRGS Carlos Tucci, referência em hidrologia urbana, afirma que ainda há vulnerabilidades e que algumas das soluções em curso têm caráter emergencial: “Tem pontos ainda que estão com fragilidades”, diz.
Uma das imagens mais marcantes da tragédia foi a de bairros inteiros destruídos. Para retirar famílias de abrigos improvisados, o governo instalou 625 unidades em cerca de 10 municípios. Dois anos depois, aproximadamente 500 famílias ainda vivem em moradias temporárias, aguardando uma solução definitiva.
“Passo aqui e fico triste”, diz a aposentada Maria Lurdes da Luz, que foi contemplada pelo programa Compra Assistida depois de precisar deixar a casa levada pelo Rio Taquari.
“Era a minha casa. Era simples, mas era minha casa, que eu trabalhei, ajudei a pagar, a construir. É difícil perder assim, na velhice… Trabalhei tanto para um dia ter onde morar”, completa.
A promessa do governo é de que ninguém ficará sem casa.
Pelo programa A Casa é Sua – Calamidade, estão previstas 2.780 moradias definitivas em 51 municípios, com investimento estimado em R$ 647 milhões.
Até agora, foram entregues apenas 176 casas pelo programa, além de 50 unidades doadas em cidades como Muçum, somando pouco mais de 200 moradias definitivas.
“A gente não pode construir em qualquer momento. Existem as questões de ordem, de natureza do serviço público, de uma licitação e a preparação do terreno”, pontua Silveira.
Em cidades severamente atingidas, áreas inteiras foram consideradas inviáveis para moradia permanente. O processo marcou uma mudança definitiva no território e na vida de muitos moradores, que perderam não apenas a casa, mas também o vínculo com o lugar onde viviam há décadas.
“Vivi aqui por 32 anos, criei meus filhos, criei o meu neto. Então, é um sentimento que tu não vai esquecer mais”, comenta a moradora de Muçum Inês Rodrigues.
O local onde Inês viveu será transformado em área de lazer e convivência. Hoje, ela mora no novo bairro Jardim Cidade Alta 2, construído em parceria entre governos e empresas. A mudança foi menos dolorosa porque os antigos vizinhos foram realocados juntos.
“Foi o que eu pedi: que me botasse perto dos meus vizinhos. A gente está tudo na mesma rua, só trocamos o bairro”, conta.
Ainda no Vale do Taquari, em municípios como Cruzeiro do Sul, bairros inteiros não voltarão a existir como antes.
Um dos exemplos é o antigo bairro Passo de Estrela, onde casas foram arrastadas pela água. A área será transformada em um parque com características sustentáveis, e as famílias estão sendo transferidas para outro bairro definido pela prefeitura, fora da área diretamente atingida pela enchente.
O reassentamento adotado em Cruzeiro do Sul passou a ser tratado como referência pelo governo estadual. Em outras cidades do Vale do Taquari, o Executivo estadual atua em parceria com prefeituras e universidades, como a Univates, na revisão de planos diretores, além de dialogar com o Ministério Público em áreas consideradas inviáveis para moradia.
Fonte: g1





