
A morte do Papa Francisco, no último domingo (20), aos 88 anos, no Vaticano, vítima de um AVC e insuficiência cardíaca, trouxe de volta antigos debates sobre profecias apocalípticas envolvendo o trono de São Pedro. Teorias medievais e interpretações bíblicas sugerem que o pontífice argentino poderia ser um dos últimos líderes da Igreja Católica antes do chamado Juízo Final.
O que diz a Profecia de São Malaquias
Uma das previsões mais citadas vem de São Malaquias, arcebispo irlandês do século 12. Segundo relatos, durante uma viagem a Roma em 1139, o religioso teria tido visões sobre todos os papas que viriam após ele. Essas profecias, no entanto, só se tornaram públicas mais de 450 anos depois, quando o monge beneditino Arnold de Wyon publicou as revelações no livro Lignum Vitae, em 1595.
O documento lista 112 lemas enigmáticos em latim, associados a cada papa, de Celestino II (eleito em 1143) até um último pontífice, chamado “Pedro, o Romano”. Segundo a profecia, esse último papa governaria a Igreja durante tempos de grandes tribulações e veria a destruição de Roma.
Francisco, por essa contagem, seria o penúltimo. Curiosamente, o lema atribuído a ele — In persecutione extrema S.R.E. sedebit (“Durante a última perseguição à Sagrada Igreja Romana, ele sentará”) — acabou ganhando interpretações ligadas ao fato de o papa utilizar cadeira de rodas nos últimos anos.
Francisco: o último ou o penúltimo?
A divisão de interpretações ocorre porque, enquanto os primeiros 111 papas na lista são descritos por frases curtas, o último lema, sobre “Pedro, o Romano”, é mais longo e detalhado, misturando o fim da Igreja com o fim do mundo. Por isso, há quem veja Francisco como o próprio “Pedro”, não só pelo nome inspirado em São Francisco de Assis — cujo nome de batismo era Giovanni di Pietro di Bernardone — mas por ocupar o papel do pastor em tempos difíceis.
A ausência do nome “Pedro” entre os papas não é casual. Desde o primeiro pontífice, a Igreja evita repetir o nome de São Pedro, por respeito e para não reivindicar seu papel único na fundação da instituição.
Profecia contestada
Apesar da popularidade entre estudiosos de teorias proféticas, a autenticidade do texto de Malaquias é questionada. Não há registros dessas previsões antes de 1590, o que levanta suspeitas sobre uma possível fabricação para influenciar o conclave daquele período. “Arnold de Wyon cita a profecia, mas jamais explica onde ou como encontrou o manuscrito”, aponta o teólogo Luis Alberto De Boni, professor aposentado da PUC-RS.
Outra crítica é que, enquanto os lemas até 1590 coincidem com brasões, origens e fatos históricos, os posteriores se tornaram vagos e sujeitos a interpretações forçadas.
A leitura do Apocalipse e os papas modernos
A teoria sobre o fim dos tempos também se apoia pela Bíblia Sagrada, no livro do Apocalipse, capítulo 17, que menciona sete reis e um oitavo, ligado aos anteriores. Alguns intérpretes associam essa passagem à sucessão de papas após a criação do Estado do Vaticano, em 1929.
Desde então, foram oito pontífices:
- Pio XI
- Pio XII
- João XXIII
- Paulo VI
- João Paulo I
- João Paulo II
- Bento XVI
- Francisco
Para teólogos como Agenor Duque, esse oitavo rei seria Francisco, e seu sucessor marcaria o início dos eventos finais descritos nas Escrituras.
Além de Malaquias, há quem veja nas enigmáticas profecias de Nostradamus possíveis referências a um papa que guiaria a Igreja em meio ao caos. No entanto, como acontece com as demais previsões, os textos são genéricos o bastante para abrigar múltiplas leituras.
Oficialmente, a Igreja Católica nunca reconheceu essas profecias e segue seu protocolo tradicional para a escolha do novo papa quando ocorre a vacância do trono de Pedro.
Entre fé, história e superstição, o futuro do papado e da própria humanidade permanece, como sempre, envolto em mistério.










