Antes de desaparecer, mulher denunciou ao Conselho Tutelar no RS que ex desrespeitava restrições alimentares do filho

Foto: Reprodução/RBS TV

A Polícia Civil afirma que Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, desaparecida há mais de duas semanas, procurou o Conselho Tutelar quinze dias antes do sumiço para relatar que o filho dela, de 9 anos, teria restrições alimentares e que o pai estaria desrespeitando suas orientações sobre a dieta da criança.

Ela e seus pais, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, não são vistos desde o final de janeiro. O principal suspeito é o policial militar Cristiano Domingues Francisco, ex-companheiro de Silvana e pai do filho dela, preso temporariamente desde a terça-feira (12) para investigação.

A criança morava com a mãe, mas passava os fins de semana na casa do pai. Pessoas próximas da mulher relatam que ela e o ex-marido não tinham uma boa relação. A polícia procura entender se essa seria uma motivação para um possível crime.

“Havia essa dificuldade com relação ao filho de questões, especialmente no tocante a restrições alimentares da criança, que, segundo a Silvana, não eram observadas por ele quando ele ficava com o menino no final de semana. O Conselho Tutelar tinha um processo de análise dessa situação”, afirma o delegado Anderson Spier, responsável pela investigação.
Em um grupo em um aplicativo de mensagens, a mulher pediu, no dia 2 de janeiro, o contato do Conselho Tutelar. Em nota, o órgão confirma que ela esteve na unidade de Cachoeirinha no dia 9 de janeiro e relatou que o menino tem intolerância à lactose.

“O pai foi até o CT em 28 de janeiro, mas por demanda livre, não por ter sido chamado pelo órgão. O motivo era saber se o filho poderia ficar com ele (isso ocorreu após os desaparecimentos).”

Após a prisão do homem, o menino foi encaminhado para a casa dos avós paternos. Na última terça-feira (10), duas conselheiras estiveram na residência dos avós para confirmar o vínculo. Na ocasião, a avó paterna apresentou um laudo alegando que o menino não sofre de intolerância à lactose.

O que diz o Conselho Tutelar
“A Silvana esteve no Conselho Tutelar (CT) no dia 9 de janeiro deste ano relatando que o pai não seguia algumas restrições alimentares que o filho teria – intolerância à lactose. O pai foi até o CT em 28 de janeiro, mas por demanda livre, não por ter sido chamado pelo órgão. O motivo era saber se o filho poderia ficar com ele (isso ocorreu após os desaparecimentos).

Ontem (terça-feira), duas conselheiras estiveram na residência dos avós paternos para conferir o vínculo com o neto, o que, de fato, existe. A avó apresentou um laudo de que o menino não sofre de intolerância à lactose. Segundo ela, a família tem psicólogo da família do plano de saúde do pai do menino e que assinaram um termo de compromisso para procurar atendimento. Se houver algum impedimento legal pela prisão do suspeito para utilizar o plano, o CT tem autonomia para solicitar o serviço junto aos profissionais da rede de proteção municipal.”

O que diz a defesa
Em nota, a defesa do suspeito afirma que ainda não teve acesso aos autos e à decisão judicial. “Não há como ter qualquer posição. Sei apenas o que está sendo vinculado na imprensa”, disse o advogado Jeverson Barcellos.

Nova perícia
O Instituto-Geral de Perícias (IGP) solicitou complemento à perícia do carro de Silvana. Os peritos estiveram na residência para fazer novos exames e análise no veículo dela. Não foi encontrado sangue, mas foi coletado material genético e impressões digitais que serão analisadas.

Quebra de sigilo telefônico levou à prisão do PM
Novos elementos sobre o caso da família Aguiar, desaparecida há mais de duas semanas, foram descobertos nesta quarta-feira (11) pelo g1.

Foi a partir da quebra de sigilo telefônico de Cristiano Domingues Francisco que os investigadores chegaram a elementos que indicam a possível participação do homem no crime. Assim, ele se tornou suspeito e foi decretada a prisão temporária, cumprida na terça (10).

Através do aparelho, foi possível identificar uma movimentação suspeita em relação ao telefone do Cristiano e também do celular da Silvana, que teria sido encontrado nas imediações da casa dos pais e foi encaminhado para perícia, para confirmar que trata-se do celular dela.

A polícia tem indícios de que o suspeito esteve próximo da família Aguiar, principalmente dos pais de Silvana, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, no dia do desaparecimento do casal — eles sumiram um dia depois da filha. Como Cristiano registrou a ocorrência, ele foi chamado para ser ouvido como testemunha. Após a prisão, ele permaneceu em silêncio durante o depoimento.

“Na ocasião, a gente aproveitou e perguntou para ele onde ele estava na hora dos eventos. Ele nos relatou que estava jantando com um casal de amigos em um local em Cachoeirinha. Ele ofereceu a versão de que ele estava fazendo um trabalho em uma obra da família, mas esse local não tem como comprovar que ele estava lá”, destaca o delegado Anderson Spier.

A prisão temporária do suspeito tem prazo máximo de 30 dias. Em nota, a Brigada Militar informou que Cristiano será afastado do serviço policial. A investigação é acompanhada pela Corregedoria-Geral da corporação.

O que a polícia apura:
Sinal de telefonia de Silvana e de Cristiano foram cruciais para que ele fosse considerado suspeito.
⁠Indício de que o suspeito esteve com a família no domingo do desaparecimento dos idosos.
Chave da casa dos idosos estava com o suspeito no dia em que ele foi ouvido como testemunha.

Entenda o caso
Silvana Germann de Aguiar, de 48 anos, e os pais dela, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, não são vistos desde o final de janeiro. Passados mais de 15 dias, o suspeito do crime foi preso.

A perícia encontrou vestígios de sangue na casa de Silvana. O material foi coletado na quinta-feira (5). Também foram periciados dois veículos da família e a casa de Isail e Dalmira.

“Encontraram vestígios diversos de material genético, além de impressões digitais (…) Sangue também. Todos esses vestígios foram devidamente colhidos por eles e agora seguem para análise no laboratório do IGP”, explica o delegado Anderson Spier, que está à frente da investigação.
Conforme o delegado, sangue foi encontrado dentro do banheiro e em uma área nos fundos da residência de Silvana. Não havia sinais de luta corporal nem de montagem de cena no local. “Os peritos entenderam que o local estava íntegro. Não tinha nenhuma alteração que sugerisse alguma espécie de luta dentro da residência”, complementa.

A polícia ainda aguarda os resultados finais das perícias que foram feitas nas casas, no minimercado da família e em imagens de câmeras de segurança que mostram a movimentação nos dias dos desaparecimentos.

Cartucho de festim
A Polícia Civil confirmou que o cartucho encontrado na casa do casal de idosos é de festim. O caso foi discutido em reunião com autoridades nesta segunda-feira (9), em Cachoeirinha.

🔍 Um cartucho de festim é um tipo de munição que simula um disparo real, com barulho e fumaça, sem arremessar um projétil. Contém pólvora e pode ser usado em treinamentos, cerimônias militares e efeitos especiais para cinema/TV, não sendo letal como a munição comum, mas ainda exigindo cautela devido à pólvora e gases.

Áudios do suspeito

Após a prisão do suspeito, a reportagem teve acesso a materiais atribuídos ao ex-marido de Silvana. Em um áudio enviado a uma conhecida na semana do desaparecimento, o suspeito pergunta sobre a investigação e reclama que demora no trabalho da polícia.

“Aproveitar e ver com o teu parente aí, ver o que eles conseguiram de imagem pra nós aí. Se a gente deixar só por eles (polícia), parece que não está progredindo”, disse.
No dia 1º de fevereiro, Cristiano enviou uma foto de dentro da casa de Isail e Dalmira, mostrando um veículo que pertence ao casal. Em outro áudio, ele conta que entrou mais de uma vez nas casas ligadas à família Aguiar.

“Eu só estou indo muito na casa da Silvana, todos os dias, porque tem um cachorro e um gato lá. Tanto que hoje eu não fui ainda, eu preciso levar ração”, afirmou.
Cristiano e Silvana têm um filho de 9 anos. A criança morava com a mãe, mas passava os fins de semana na casa do pai. Com o sumiço de Silvana, Cristiano procurou o Conselho Tutelar, que recomendou que o filho ficasse com ele durante as investigações.

Com a prisão, o menino agora está sob os cuidados de uma parente por parte do pai. Foi o próprio suspeito que fez o primeiro boletim de desaparecimento de Silvana.

Fonte: g1